05 julho 2016

Diabo na Cruz na banda sonora do documentário 'Póvoa, ó Linda Póvoa'

Sete canções de Diabo na Cruz perfazem a banda sonora do novo documentário de Manuel Abelho. Póvoa, ó Linda Póvoa! partilha as histórias e as vivências dos habitantes de Póvoa de Atalaia, a aldeia onde nasceu Eugénio de Andrade:

04 julho 2016

Entrevista: Manuel Pinheiro

Manuel Pinheiro, o homem das percussões e electrónica em Diabo na Cruz, responde às questões dos fãs e fala do seu projecto Luso Beat, dos muitos instrumentos que toca na banda e do dia em que tocou com Tony Allen e Damon Albarn dos Blur.

Quantos instrumentos tocas durante um concerto de Diabo na Cruz? Que instrumentos te dão mais gozo tocar?
15! Fiz agora as contas de cabeça e são à volta de 15 instrumentos. O adufe é especial para mim. Houve um período na banda dos meus pais, os Ephedra, onde as suas canções receberam influências da música e instrumentos tradicionais portugueses, e como o meu pai era o percussionista do grupo nós sempre estivemos rodeados de muita percussão: instrumentos brasileiros, angolanos, nigerianos, americanos, mas o adufe que andava lá por casa sempre me fascinou mais que os outros. Fico muito contente por tocar o adufe em Diabo na Cruz.

Qual foi o primeiro instrumento que aprendeste a tocar?
Não sei bem dizer se foi a bateria ou a guitarra clássica. Lembro-me que comecei a aprendê-los ao mesmo tempo. As cordas sempre foram os meus instrumentos preferidos nos tempos livres e de descontracção, uso a guitarra para me ajudar a compor algumas coisas, mas só ocasionalmente a gravo ou toco ao vivo.

O que é que gostas de ouvir?
Ouço muito rock e pop/rock nacional e estrangeiro e gosto de ter comigo os meus discos favoritos de jazz. Gosto de ouvir música mais tradicional de diferentes culturas, muita dela portuguesa. Gosto de alguma música electrónica de dança, mas ouço mais música electrónica experimental ou ambiental. Quando quero mesmo relaxar ouço música clássica porque é talvez o único género musical que não analiso demasiado enquanto estou a ouvir.

Que música gostas mais de tocar nos concertos de Diabo na Cruz?
Vida de Estrada! (A escolha não foi fácil... :)

Que tal é teres o teu irmão mais velho [João Pinheiro] na banda?
Sempre gostei de tocar e partilhar o palco com o meu irmão! Foi muito marcante para mim ter formado com ele os Tv Rural, uma das minhas primeiras bandas e onde hoje em dia faço o som ao vivo. Temos uma relação intensa e existe uma grande cumplicidade entre nós. Tocar com ele é, para mim, um aspecto muito importante do nosso relacionamento, e a responsabilidade de fazermos parte da mesma banda enriquece esse relacionamento. Hoje em dia conseguimos, talvez melhor que no passado :), encontrar um equilíbrio saudável entre o lado pessoal e o profissional. Senti-me orgulhoso quando o Jorge me ligou para me convidar para as percussões e me disse que o meu irmão me tinha recomendado. Também adoro os meus outros irmãos da numerosa família que são os Diabo na Cruz!

Como és o mais novo em Diabo, sentes que tens algo a provar ou já estás confortável dentro da banda? 
O Virou!, no ano em que saiu, foi um dos discos que mais rodou no meu leitor de mp3. Nessa altura eu vivia em Londres e ainda não fazia parte da banda e lembro-me de ter adorado o disco e de pensar que Diabo na Cruz era a minha nova banda portuguesa favorita. Quando entrei para a banda para tocar percussões nos concertos senti a responsabilidade de ajudar a representar ao vivo esse grande disco. Para mim a fasquia era alta e eu tive de esforçar-me muito para tentar estar à altura. Fui logo bem recebido e agora, depois de ter gravado dois discos e de ter passado tantos momentos incríveis com os meus colegas e amigos ao longo destes anos, sinto-me muito bem na banda.

Em 2013 tocaste com o projecto Batida em Marselha - como é que isso aconteceu e quão incrível foi essa experiência?
Conheci o Pedro Coquenão, que é o mentor de Batida, quando colaborei algumas vezes no seu projecto Rádio Fazuma, entre 2002 e 2004. Nessa altura fizemos umas coisas giras que incluíram concertos ao vivo em formato de emissão rádio e até um directo para a rádio, via telefone, a partir de Itália. Depois fui estudar e viver para fora e fomos mantendo algum contacto. Quando voltei para Portugal em 2011 comecei a participar ocasionalmente em Batida. O Africa Express, a experiência de Marselha, envolveu passar dois dias num grande armazém onde se misturaram músicos de imensas bandas diferentes (Batida, Kasabians, Django Django, Gorillaz, entre outros) e um dia de concertos onde se mostrava ao público todas as colaborações que surgiram desses ensaios. Foi uma experiência muito boa e foi incrível ter tocado ao vivo em modo jam session com o Damon Albarn dos Blur e com o fantástico Tony Allen, inventor dos ritmos Afrobeat.

Que outros projectos tens além dos Diabo?
Para além dos Diabo na Cruz faço o som de algumas bandas e artistas portugueses: You Can't Win Charlie Brown; Tv Rural; Três por Cento; Real Combo Lisbonense; Flak; Oioai; Vitorino Voador; Joana Barra Vaz. Também trabalho como sonoplasta para teatro, dança e artes sonoras, percurso que começou quando estava na faculdade de sound design em Londres e que me levou a conhecer e colaborar com artistas como o Ricardo Jacinto, o Robin Dignemans, o Tarell Alvin McCraney ou a Valeria Caboi, entre outros.

Como trabalhas também com a parte técnica dos concertos de outras bandas, quando estás em palco com Diabo consegues libertar-te dessas preocupações mais técnicas e expressar o teu lado criativo?
Um músico, para além de ter de se concentrar na performance, também sofre de preocupações técnicas: afinações, cordas, peles da bateria, cabos... No meu caso, que toco 15 instrumentos nos concertos de Diabo, as questões técnicas são muito importantes e há um trabalho de manutenção bastante detalhado para manter tudo a funcionar bem. Quando as coisas correm bem num espectáculo consigo expressar o meu lado criativo como músico e como operador de som. Os concertos de Diabo estão bem oleados e temos uma equipa técnica óptima, isso ajuda com as (des)preocupações técnicas.

É mais complicado trabalhar num concerto como técnico ou como artista?
Eu acho que hoje em dia a linha que separa um técnico de som de um artista é uma linha bastante ténue. Um operador de som deve ter, assim como um músico, um lado musical e um bom ouvido. Deve olhar para os seus instrumentos, a mesa de som e outros processadores, como instrumentos musicais que servem para manipular os sons e esculpir um resultado artístico final. Uma grande diferença é a exposição ao público. Se pensarmos no exemplo de um concerto de Rock, como técnico de som eu desfruto de um ligeiro anonimato durante a performance, que acontece naturalmente, e consigo assim concentrar-me sem grandes pressões, mas como músico alimento-me da energia das pessoas e da adrenalina que sinto quando tocamos para um público. São actividades um pouco diferentes, mas ambas têm as suas dificuldades e características próprias.

Luso Beat, conta-nos a história da iMoça... 
O iMoça é uma remix da Moça Esquiva. Foi uma resposta ao desafio que o Jorge me lançou de interpretar o tema à minha maneira. Usei vozes e alguns elementos das gravações originais, manipulados e modificados por mim e combinei-os com as minhas batidas electrónicas, os sintetizadores e os tambores portugueses distorcidos. Luso Beat já existe há muito tempo na minha cabeça e foi quase automático associar as duas coisas e assinar a remix com esse nome. Quando chegou a altura de preparar o Saias EP surgiram dúvidas em relação ao título e quem sugeriu iMoça foi o meu irmão. Obrigado, João!

Que tipo de coisas gostavas de fazer com o projecto Luso Beat?
Luso Beat nasce da minha vontade de ligar duas linguagens musicais distintas: a da música tradicional portuguesa, com as suas harmonias próprias e os tambores fortes e de ritmos marcados, e a da música electrónica. Não falo só da música electrónica que se faz hoje em dia e tenho como influência os discos do Terry Riley nos anos 70, os Kraftwerk, os Radiohead, os Pink Floyd ou o Aphex Twin. Em vez de tentar colar à força elementos dos dois géneros musicais, interessa-me explorar a comunicação ou ponte entre os dois mundos e deixar que eles se influenciem e se mudem um ao outro. Neste momento estou a organizar ideias antigas e experimentações que fui fazendo ao longo dos anos e a compor outras novas, com o intuito de reunir temas para uma edição como Luso Beat.

➤ Ver também:
Entrevista: Sérgio Pires
Entrevista: João Pinheiro
Entrevista: Jorge Cruz
Entrevista: Bernardo Barata
Entrevista: João Gil

Vídeos: Coimbra, 1 de Julho (parte 2)









28 junho 2016

Entrevista: João Pinheiro

João Pinheiro, o baterista filósofo. Nestas respostas às perguntas lançadas pelos fãs, ficam a saber que a sala de ensaios é o seu ginásio, a importância do seu irmão em Diabo na Cruz, os bateristas que mais admira, a filosofia da bateria e muito mais.

Qual é a música de Diabo na Cruz mais lixada de tocar, que puxa mais por ti (e pela bateria)?
Talvez a música que puxe mais por mim seja a "Bomba-Canção", por ser rápida e ter um desenho de bateria bastante busy. Mas também posso sentir isto porque não a tocamos em todos os concertos, e por isso está menos oleada que outras. Por outro lado, quando a tocamos, é mais para o final dos concertos, numa altura em que estamos mais cansados. Ainda assim, está no meu top de músicas preferidas de diabo.

Já chegaste a entrar, ou a considerar entrar, para um concerto já sem t-shirt vestida?
Sinceramente não me lembro bem se isso aconteceu, mas é possível ter acontecido num concerto em Lisboa na Praça do Intendente, por causa do calor infernal que estava nessa noite.

Quantas horas por dia passas no ginásio?
Nunca entrei num ginásio a minha vida inteira. Não gosto muito da ideia de ir ao ginásio, mesmo nada aliás. Sempre fiz desporto e ainda faço algum, antigamente era acima de tudo futebol e hoje em dia é mais bicicleta. O meu ginásio é a sala de ensaios! Aí passo bastantes horas por dia!

O berço do Diabo foi na garagem da família Pinheiro. Aquele espírito adolescente de banda de garagem ainda está convosco?
Penso que o espírito adolescente faz parte do Rock e Diabo na Cruz é essencialmente uma banda de rock. E é também uma banda de garagem, foi aí que começámos e sempre que ensaiamos sentimos esse espírito vivo e presente em nós. No entanto, quando a banda começou nós já não éramos adolescentes e portanto conseguimos aliar a esse espírito alguma maturidade e experiência, o que nos permitiu ser mais eficazes em muitas alturas. De qualquer modo, posso dizer que num certo sentido, é esse espírito adolescente da banda de garagem que ainda hoje me move na forma como oiço música e na forma como toco.

Que tal é ter um irmão mais novo [Manuel Pinheiro] na banda? Dás-lhe cabo do juízo? :D
Sempre tive a experiência de tocar com o meu irmão em banda. Ele fez parte da formação dos Tv Rural (a minha primeira banda, que ainda tenho) e foi pela minha mão que entrou para os Diabo. Claro que a relação entre irmãos às vezes é mais intensa, mas com a idade aprende-se a limar arestas. Todos os dias isso tem de ser feito para o bem do equilíbrio do grupo que é o mais importante. Neste momento ele é, como todas as outras pessoas na banda, um elemento indispensável e ajudou muito a desenhar a sonoridade que temos actualmente.

Como é a partida e a chegada de novos membros à banda? Acontece de forma natural ou sentem-se algo renitentes de início e ao longo do tempo passa?
É um processo natural de adaptação. Ao início todos sentimos as diferenças, mas, sempre que isso aconteceu, a renitência da nossa parte foi mínima e por isso o entrosamento de quem entrou foi rápido. E quem entra tem sempre algo de novo a dar à banda, o que também é motivo de entusiasmo para quem está. Por outro lado, depende das circunstâncias em que acontece essa mudança, mas no geral, apesar de nos sentirmos mais seguros quando a formação está estabilizada, há sempre algo de bom que acontece quando se agitam as águas.

Li algures que tinhas estudado Filosofia. A última coisa que nos passa pela cabeça quando te vemos a dar o litro na bateria é que aquele homem se interessa por ideias e conceitos... Porque estudaste Filosofia e porque é que isso te fez falta?
Compreendo essa estranheza, ainda por cima sendo o meu instrumento algo tão físico, mas não são coisas incompatíveis. Há qualquer coisa meio inexplicável que não separou para mim a bateria da filosofia, algo como um pensar do todo que está presente em ambas. Eu nunca deixei de tocar bateria durante todo o curso.
O meu interesse na Filosofia apareceu quase só no 12º ano, muito por causa da professora que tive, mas muito também porque fui surpreendido pela descoberta de uma nova abordagem da realidade e do mundo e por uma forma de pensar mais profunda e atenta a dimensões que eu desconhecia até então.
Quando escolhi a licenciatura em Filosofia fui um pouco atrás desse fascínio recente, mas também fui empurrado pelas boas notas que tive nesse ano. No entanto, houve momentos em que admito ter pensado seriamente em desistir, sobretudo porque me apercebi desde cedo que a música seria o meu caminho. Hoje a minha relação com a filosofia é bastante mais distante.

Quais são os bateristas que mais admiras (em Portugal ou lá fora)?
É impossível não deixar ninguém de fora, quando há tanta gente que me influenciou e influencia. Além do meu pai, que também tocava bateria e teve uma banda, o baterista que me fez querer tocar foi o Dave Grohl. Ele é a energia e a garra supremas, aliadas à técnica e às ideias certas para cada música onde participa. Dessa geração tenho de referir também o Matt Cameron dos Soundgarden. Depois os mais antigos, claramente o John Bonham, o Ginger Baker e o Robert Wyatt. Em Portugal, o Rui Alves é o baterista que mais me fascinou, para além de ser uma das melhores pessoas que conheci. Actualmente penso que temos óptimos bateristas em Portugal. Um dos mais completos e cativantes para mim é o João Correia. Mas gosto muito da energia do Hélio Morais ao vivo, da eficácia do Fred Pinto Ferreira e do talento do David Pires. Entre muitos, muitos outros!

Já partiste muitas baquetas em concertos de Diabo na Cruz? O público pede-te muitas vezes para ofereceres as baquetas?
Às vezes ficam meio lascadas ou até rachadas, mas partir mesmo só parti duas ou três vezes. Sim, o público pede-me baquetas em quase todos os concertos, já me aconteceu mais do que uma vez até, receber mensagens com meses de antecedência a pedir baquetas. Tento dar o mais que posso, às vezes não consigo.

Tendo em conta que estás na banda desde o início, qual é a música que mais gostas de tocar? Há alguma da qual já estejas farto?
Neste momento a música que eu mais gosto de tocar é o "Mó de Cima", do último disco. Farto propriamente não me sinto em relação a nenhuma música do nosso concerto, mas às vezes as mais antigas não são as que mais apetece tocar. Faz parte...

Uma vez que bates todos os recordes de projectos paralelos, alguma vez receias não conseguir dar o teu máximo por te desmembrares em tantas bandas?
Obviamente faço tudo para que isso não aconteça, mas admito que conciliar agendas e interesses às vezes tão distintos, pode tornar-se uma dor de cabeça. A verdade é que, mesmo sendo Diabo na Cruz a minha banda principal, é-me muito difícil imaginar-me a tocar numa só banda e a canalizar num só sentido aquilo que tenho para dar. Tento dar tudo o que tenho a cada banda onde estou envolvido e quando percebo que estou a perder esse comboio, e as pessoas à minha volta podem sair prejudicadas com isso, tenho de tomar decisões…

Ter tantas bandas e tocar com diferentes músicos faz de ti um músico melhor? De que forma?
Estou certo que faz de qualquer pessoa um músico melhor. Lidar com formas diferentes de encarar a música, com processos e estilos musicais distintos, com formações de banda diferentes, desenvolve a capacidade de trabalho em grupo, a própria técnica do instrumento e aumenta o leque de soluções para utilizar em cada canção. E principalmente, cada músico individualmente é uma fonte de inspiração e influência para mim, cada um tem sempre alguma coisa nova e única para dar, por isso, com quantos mais e melhores músicos eu puder trabalhar, melhor!

➤ Ver também:
Entrevista: Sérgio Pires
Entrevista: Manuel Pinheiro
Entrevista: Jorge Cruz
Entrevista: Bernardo Barata
Entrevista: João Gil